segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Pianista de Hotel

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Edição: 2017/ maio
Páginas: 480
ISBN: 9789722062701
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
O Pianista de Hotel transporta-nos numa melodia.

É uma entrada para um mundo regido pela linguagem da música, pela sua força e beleza, presentes no ritmo de cada frase, de cada parágrafo rigorosamente medido.
Livro em camadas, nele se cruzam diversos planos, diversas histórias perpassadas pelo poder redentor da música que entra e rasga, a solidão, a dor e o vazio das pessoas que habitam nestas páginas. Com um vasto subtexto, a densidade das personagens está carregada de mistérios que nos prendem a sucessivas interrogações.

Há um pouco de nós em todas elas.
Há muito de nós neste mergulho ao mais fundo da alma humana.
É um romance que se lê e ouve, que mantém todos os sentidos alerta. Uma pauta musical, com andamentos diversos, que acabam por se cruzar numa vertigem imprevisível de autêntico thriller psicológico.

E, depois, há o pianista…

A minha opinião:
"O Pianista de Hotel" é o quinto romance de Rodrigo Guedes de Carvalho e o primeiro que leio deste autor. A publicidade e os comentários favoráveis tornaram possível esta leitura, marcada por uma inquietação ou tensão constante. Uma leitura que não se quer rápida, apesar da linguagem acessível e rica em diferentes tons.  A estrutura narrativa  não tem qualquer reparo, excepto o acesso sem pejo que a torna compulsiva. 

Duas personagens principais, Maria Luísa e Luis Gustavo, dois nomes próprios como que a chamar a atenção para a solidão, a perda e o desamparo, num vazio tão  grande que os torna conscientes do que e de quem os rodeia. Circunstâncias tão próximas que julguei que teriam que se encontrar. Outras vidas se sobrepõem nesta narrativa, como Pedro Gouveia e Saúl Samuel, outras dores se acumulam no quotidiano de uma grande cidade portuguesa. A violência contra as mulheres que me toca particularmente. Bullying, homossexualidade e morte. E claro, a música e o pianista de hotel. A beleza que não ouvimos neste romance que desperta os sentidos. 

Um romance forte e acutilante. Um romance que vou querer reler. Um romance para o qual desejava um final idílico. Um romance que perturba. Muito bom. 

domingo, 23 de julho de 2017

A Chave para Rebecca

Autor: Ken Follett
Edição: 2017/ abril
Páginas: 384
ISBN: 978-972-23-6003-6
Editora: Presença

Sinopse:
Para os alemães, é conhecido por Esfinge; para os outros, é Alex Wolff, um empresário europeu. Espião alemão, Wolff chega ao Cairo vindo do deserto. Leva consigo um rádio, um punhal e um exemplar do romance Rebecca, de Daphne du Maurier. Trata-se de um homem implacável, violento e disposto a tudo para levar a cabo a missão de que foi incumbido.

Wolff tem de enviar a Rommel mensagens diárias, utilizando um código no referido exemplar. A campanha britânica no Norte de África está em perigo e só o major William Vandam, dos serviços secretos, e Elene, uma prostituta egípcia por quem este se apaixonou, podem travar as mensagens clandestinas de Wolff. À medida que as tropas de Rommel avançam, Vandam persegue Wolff em busca da chave do código secreto e do confronto final, do qual só um deles sairá vencedor.

Com uma história intrincada e maravilhosamente bem construída, A Chave para Rebecca é um dos thrillers mais entusiasmantes de Ken Follett.
   

A minha opinião:
Admito, li muito pouco de Ken Follett. Não resisti quando encontrei este livro a baixo custo. Não sabia que era uma nova edição de um livro já lançado anteriormente. Ainda assim, não desvaneceu em nada o prazer da leitura.

Thriller de espionagem em que ambas as forças intervenientes na Segunda Guerra Mundial procuram vencer. Alex Wolff é um espião alemão de regresso ao Egito, que se depara com o major William Vandam, chefe de segurança dos Serviços Secretos Britânicos no Cairo para o travar. O espião conhecido por Esfinge, consegue um bom avanço com a cooperação de Sonja, uma famosa bailariana do ventre, ao revelar aos alemães muitos dos planos e segredos dos Aliados. Elene, jovem, judia e egípcia, apaixona-se pelo viúvo major Vandam e aceita seduzir o espião para deste modo o localizarem e prenderem.

Uma intricada trama, com algumas personagens relevantes para a ação, e com um enredo inicíal muito simples. A diferença é no modo rápido e ritmado, como é contada a história. E nos detalhes que tornam esta trama coerente e consistente. Cinematográfica. O carisma e a inteligência do vilão é uma surpresa que, num outro romance de Ken Follett também me surpreendeu. Apesar disso, torci pelos bons. Não foi dos melhores livros que li do género mas foi uma agradável leitura. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Isto Acaba Aqui

Autor: Colleen Hoover
Edição: 2017/ maio
Páginas: 336
ISBN: 9789898800985
Editora: TopSeller

Sinopse:
O que te resta quando o homem dos teus sonhos te magoa? 

Lily tem 25 anos. Acaba de se mudar para Boston, pronta para começar uma nova vida e encontrar finalmente a felicidade. No terraço de um edifício, onde se refugia para pensar, conhece o homem dos seus sonhos: Ryle. Um neurocirurgião. Bonito. Inteligente. Perfeito. Todas as peças começam a encaixar-se.

Mas Ryle tem um segredo. Um passado que não conta a ninguém, nem mesmo a Lily. Existe dentro dele um turbilhão que faz Lily recordar-se do seu pai e das coisas que este fazia à sua mãe, mascaradas de amor, e sucedidas por pedidos de desculpa.

Será Lily capaz de perceber os sinais antes que seja demasiado tarde? 
Terá força para interromper o ciclo?

A minha opinião:
Com esta capa, dificilmente teria lido este livro, senão me tivesse sido imposto por uma boa amiga com um único comentário - "Tens que ler este livro!" E acertou, claro!

Um romance que ultrapassa barreiras. Do preconceito. Ou de ideias préconcebidas, nomeadamente de que se pretende apenas entretenimento. 

Um romance que é um caso sério. Uma temática batida mas nunca o suficiente, e sempre pertinente. Ideal para mentes sonhadoras e idealistas, corajosas e ousadas, que não devem perder os seus limites. Mulheres fortes e inteligentes que se apaixonam por homens bonitos, carinhosos, compassivos e divertidos numa relação que parece perfeitamente possível e ainda assim, ter de escolher. A empatia com os protagonistas é de realçar porque  torna esta leitura imparável e absorvente. 

Uma estória pessoal e exigente para a autora que merece a minha admiração pelo desfecho exemplar. O início também vale a pena recordar e as cartas para Ellen DeGeneres no formato de diário que nos dão a conhecer Atlas num outro caso que importa repensar. 

Um romance a não perder. Enredo, personagens, narrativa sem motivo para crítica. Um prazer de ler!

sábado, 8 de julho de 2017

Nem Morto!

Autor: Lee Child
Série: Jack Reacher
Páginas: 424
ISBN: 9789722532426
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
Jack Reacher não tem para onde ir e quando chega a uma passagem de nível numa pradaria com o curioso nome de Mother's Rest, aquele parece-lhe o sítio ideal para fazer uma paragem de um dia. Está à espera de encontrar uma campa abandonada num mar de trigo maduro… mas, em vez disso, encontra uma mulher à espera do colega desaparecido, uma mensagem crítica acerca da morte de duzentas pessoas e uma cidade de gente silenciosa e vigilante. A paragem de Reacher transforma-se numa missão sem fim... no coração das trevas!

A minha opinião:
Ando numa de estreias. Lee Child é um dos escritores que nunca li, num género literário que é do meu agrado. Uma investigação com um protagonista 
excepcional - taciturno e frugal nas respostas, mas que inspira confiança e segurança - Jack Reacher. Consigo imaginar Tom Cruise no papel de Reacher de um filme que nunca vi.

Nesta trama mistério tem uma parceira casual, Michelle Chang, ex FBI, atualmente investigadora privada, que procura um outro investigador, entretanto desaparecido, que pedira o seu apoio em Mother´s Rest. A relação entre eles é de profundo entendimento nesta narrativa marcada por muitos diálogos.

Thriller com ação. O foco está nas personagens e no cenário bem descrito, mas lá mais para o fim percebi onde é que toda aquela trama mistério ia desenrolar. Um repugnante e lucrativo esquema que foi um murro no estômago tal a sordidez dos crimes. Uma ótima leitura de férias!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Terceira Mulher

Autor: Lisa Jewell
Edição: 2017/ junho
Páginas: 304
ISBN: 9789898869043
Editora: TopSeller

Sinopse:
Todos temos segredos, e os segredos têm consequências.
Adrian Wolfe tem duas ex-mulheres, cinco filhos e demasiada bagagem.

Mesmo assim, ele e a sua terceira mulher, Maya, vivem em harmonia com a sua extensa família… Até que Maya morre inesperadamente e sem explicação. Um ano depois, as circunstâncias bizarras da sua morte continuam a atormentar Adrian: terá sido mesmo acidente? Ou suicídio? Teria Maya razões para tirar a sua própria vida?

Tentando ultrapassar o luto, Adrian decide investigar e descobre segredos perturbadores que o levam a passar em revista a relação com as ex-mulheres e os filhos. De repente, a frágil bolha de felicidade que envolvia a sua esquizofrénica família rebenta. Nem tudo é o que parece com os Wolfes. E quanto mais defeitos Adrian descobre na sua vida aparentemente perfeita, mais ele se questiona: será que algo ou alguém levou Maya à beira do precipício?

Um romance intenso sobre famílias modernas, que o deixará completamente agarrado aos seus segredos.

A minha opinião:
Não, não e não. Não tem comparação com os romances de Liane Moriarty.
Vagamente semelhante no tipo de enredo em que sentimentos ocultos em ambientes alegres vão sendo gradualmente expostos. A intensidade, o ritmo e o suspense que Liane consegue tão bem, não são atingidos neste romance. As personagens também não são tão bem conseguidas. Em suma, é um bom romance mas ficou aquém das minhas expectativas, considerando a possibilidade referida na capa.

Maya é a protagonista que morre no início da estória, e justamente por isso, a narrativa avança e recua no tempo, para deste modo se compreender a relação causa e efeito na razão deste desfecho numa aparente feliz família alargada. Uma utopia.  Adrian assumia que quando partia atrás do brilho de uma nova relação com uma nova mulher, as ex. e os filhos ficavam bem na sua antiga vida sem ele. A mesma casa, os mesmos amigos, a mesma escola. Era generoso. Enfim... os problemas surgem com uma misteriosa mulher e a revelação de emails críticos que Maya escondeu enviados por um deles. 

Atual e analítico. Sensível. Faltou o rasgo de genialidade para ser um romance empolgante e memorável.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Debaixo da Pele

Autor: David Machado
Edição: 2017/ maio
Páginas: 304
ISBN: 9789722062725
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Júlia nunca contou toda a verdade sobre o que lhe aconteceu. Nem aos pais, que a sentem cada vez mais distante; nem às amigas, que não vê há meses. Acreditou que dessa forma seria possível esquecer tudo; mas a memória que o seu corpo guarda não pode ser apagada, e por isso, apesar dos seus dezanove anos, Júlia só deseja ficar quieta, encolhida numa vida vazia, longe de tudo e de todos.

No prédio onde mora, vive Catarina, uma menina de quatro ou cinco anos, filha de uns vizinhos cujas discussões violentas Júlia escuta através das paredes. Salvar essa criança torna-se então essencial à sua própria salvação. Mas será possível fugir do passado quando ele permanece debaixo da pele?

Eis o ponto de partida deste romance fascinante e profundamente actual, que acompanhará os momentos cruciais das vidas de Júlia e Catarina ao longo de mais de trinta anos, nos quais as suas histórias ora se entretecem, ora se afastam.


A minha opinião:
Sabia que ler um romance de David Machado não seria pacifico. Ademais com o que era sugerido pelo título e pela capa. Preparei-me psicologicamente para as personagens Júlia e Catarina, vitimas de violência. Mas... não me preparei de todo para o que iria ler. Não é possível ficar indiferente ao teor do que escreve muito bem.  

"Júlia não está cá" é um conto de "pouco mais de cem páginas sobre um dia na vida de uma rapariga chamada Júlia, que no ano anterior, foi agredida pelo namorado e que desde então, quer viver o menos possível. Porém, nesse dia em particular, conhece uma criança que precisa de ajuda e..." a missão de Júlia foi demais para mim que abandonei a leitura. Como é óbvio, retomei, graças a uma conversa com uma amiga mais esclarecida do que eu sobre o que se seguia.

O distinto segundo conto, de frases curtas e algumas rectificações, é  mais próximo no tempo. Trata a relação com contornos trágicos de uma jovem inquilina de um homem mais velho. Tinham em comum o eco da dor das suas infâncias, entranhadas debaixo da pele. E o medo. Uma constante de quem sofre. Salomão, o narrador fictício, criado pelo protagonista para se proteger da violência do texto que explanava o sucedido em duas versões paralelas. 

E por fim, o último conto, sobre "As cassetes do Manuel", actual e factual. A infância do Manuel enquanto a mãe travava uma guerra que durava a sua vida toda contra o medo e nisto se resume todo o livro. Um emaranhado que encadeia algumas personagens, que começam por ser vitimas e por vezes, acabam como agressores, resultado do medo e da dor que fica debaixo da pele, porque mesmo que se apague da memória o corpo recorda.

Muito bom e de leitura compulsiva, mas difícil, não pelo discurso que muda, como seria de esperar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando Perdes Tudo Não Tens Pressa de Ir a Lado Nenhum

Autor: Dulce Garcia
Edição: 2017/ fevereiro
Páginas: 272
ISBN: 9789897022524
Editora: Guerra & Paz

Sinopse:
Um homem, duas mulheres, uma criança. A história de um triângulo amoroso à luz do que são hoje as relações sentimentais, marcadas por separações e recomeços e jogos psicológicos variados. Um romance onde se fala de paixão, desejo, raiva e um medo incrível da loucura. Também tem ameaças, mentiras e sexo. E humor, esse lado cómico que existe em todos os episódios, até nos mais trágicos.
O que nos leva a apaixonarmo-nos e deixar tudo para trás? Como é possível mentirmos para obrigarmos alguém a ficar ao nosso lado. É normal um pai não gostar de um filho? E o amor, sempre o amor, é hoje uma doença ou a única terapia?
Isabel sempre disfarçou os seus sentimentos debaixo de uma capa de serenidade, sobretudo desde que o irmão enlouqueceu depois de assistir a uma autópsia. Mas apaixona-se.
Uma história de amor escandalosamente contemporânea, que fala de desejo e raiva, da violência do fim dos casamentos e da luta em torno da guarda dos filhos, da culpa de quem decide partir e de como isso pode arrasar o futuro.


A minha opinião:
"O amor é o único lugar onde os adultos recuperam uma parte da infância."  (pag. 126)

Depois de um romance histórico numa perspectiva feminina, nada melhor do que ler um romance atual com ambas as perspetivas, alternadamente, a feminina e a masculina. Um primeiro romance com muito génio, perspicácia e humor. A temática não é fácil. E nem todos poderão querer ler um romance acerca de um triângulo amoroso num jogo psicológico tão comum hoje em dia. Afinal, andamos todos atrás da felicidade, procuramos escapar à solidão e é tudo tão intenso e dramático que se torna ridiculo, cruel e imaturo. Com "bagagem" se chega e com mais "bagagem" se parte e daí os saltos temporais em que se ganha em entendimento e nada se perde da estória. 

Atrevo-me a escrever que o título é perfeito. Longo, mas combinado com a capa e a sinopse ficamos logo com uma ideia do que se espera desta leitura. E é mais, muito mais. Um romance que não se deve perder. Sem pressa, ler e descobrir pontos em comum que nos podem levar a alguns lugares. 

"Que estranha raça (...) A nossa. Fazemos os possíveis por passar cada vez menos tempo sozinhos; arranjamos amantes, amigos, empregos absorventes e doenças que nos afastem da consciência; procuramos a salvação fora do casulo quando o único sentido da vida está no forro do que somos." (pag. 18) 

"O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sózinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo."  (pag.95) 

Café Amargo

Autor: Simonetta Agnello Hornby
Edição: 2017/ junho
Páginas: 368
ISBN: 9789897243691
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Café amargo acompanha a vida de uma mulher que não se curva perante o poder masculino. O romance nasce na Sicília, mas a autora transporta-nos até muito mais longe. A protagonista é uma mulher de paixões, marcada também por vários sofrimentos que engole com altivez, como se fosse uma chávena de café amargo. A história de Maria e das suas escolhas pouco convencionais retrata uma época decisiva da Europa. Um romance histórico marcado por memórias pessoais e vividas.

A minha opinião:
Com muito agrado recebi este livro que já tinha debaixo de olho.

Um romance no feminino. Não que seja um romance dedicado ou exclusivamente compreendido por leitoras, mas a perspectiva é feminina. Maria é uma personagem impactante. Reservada, discreta e firme. Inteligente, sem dúvida, uma vez que soube impôr-se sem grandes atritos. Feminista, ou melhor, socialista na Sicília no inicio do Sec. XX. O papel da mulher era procriar, cuidar e servir e Maria renegava-o. Parece biográfico mas é ficção. 

Pietro Marra propôs casamento a Maria assim que a viu. Contrariamente, ao que era habitual na época, ela determinou as condições. Não teve uma vida fácil apesar de priveligiada. Uma familia sólida, um casamento com um homem rico e três filhos fantásticos, mas as invejas e rivalidades determinaram o Café Amargo que cedo teve que tomar. Pietro, amante do belo e de vícios era um problema que ela também tinha que gerir. Não se trata de um romance sobre a pobre menina rica apesar de ter de amar em segredo.

Ao longo da sua vida, que corre paralelamente com alguns dos grandes acontecimentos de Itália, uma estreita amizade a liga a Giosué que a instrui e a ajuda a ver as coisas do mundo. A conquista de África, o racismo contra os negros e contra os judeus. Narrativa crua e pouco dada a devaneios românticos com exceção da correspondência de Giosué durante a Segunda Guerra Mundial numa escrita segura que é pontuada por descriçoes que nos situam no tempo e nos lugares. 

Adorei ler este livro num breve período de férias. Uma maravilhosa oferenda. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A Magia das Pequenas Coisas

Autor: Sarah Addison Allen
Edição: 2017/ abril
Páginas: 280
ISBN: 9789897417085
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Por detrás das sebes de um jardim encantado, está aninhada a casa da família Waverley. As mulheres que a habitam são herdeiras de um legado mágico: a macieira, que produz frutos proféticos, e as flores comestíveis, com os seus poderes únicos. Mas algo se passa ultimamente. Uma estranha inquietude parece invadir tudo e todos.

A discreta Claire tem um novo negócio. Inspirada pelo jardim, ela produz doces artesanais em que usa a lavanda para atrair a felicidade, as rosas para reconquistar os amores perdidos, a lúcia-lima para acalmar a garganta e o espírito… E o sucesso destas guloseimas é tanto que ameaça afastar Claire das pessoas e da vida que tanto ama. A rebelde Sydney anseia apenas por um novo começo... e um novo bebé. 

Mas as tentativas têm sido vãs. A sua alegria de viver perde um pouco de brilho a cada dia que passa. A "pequena" Bay, agora uma adolescente, acabou de declarar o seu amor pelo rapaz errado. Apenas Evanelle continua a dar às pessoas exatamente aquilo de que precisam…

E quando um misterioso forasteiro chega à cidade e desafia a essência da própria família, cada uma destas mulheres terá de fazer escolhas difíceis e inesperadas.

A minha opinião:
A Magia das Pequenas Coisas é encantador por fora e por dentro. 

Apaixonei-me pelas estórias de Sarah Addison Allen há muito e desde então acho que não perdi nenhuma. Aromas e magia desde o primeiro das Irmãs Waverley com o título O Jardim Encantado.

Se bem me lembro ... cada uma das estórias é sobre uma das mulheres Waverley e o seu dom especial. Claro que a ligação entre elas prevalece e cada uma das narrativas é independente das anteriores e abreviada no contexto atual. Desta feita, a protagonista é Bay, a filha de 15 anos de Sydney. O seu dom especial é a capacidade de captar o lugar de pertença de cada um com que se cruza e Josh ser o seu par, o que unanimemente não é bem aceite. Depois, cada uma das mulheres tem os seus próprios conflitos e dificuldades para superar num romance repleto de desejos, sensações e percepções que fazem parte do universo feminino. 

O ano em que tudo mudou é um marco,  uma mudança de vida, e a primeira geada é quando a velha e sábia macieira floresce e tudo se ajeita como num passe de mágica num romance de encantar. Um romance que é um bálsamo para contrabalançar dias difíceis. Positividade, confiança e aceitação num enredo tão bom. Um prazer de ler!

domingo, 11 de junho de 2017

O Rio das Pérolas

Autor: Isabel Valadão
Edição: 2017/ maio
Páginas: 248
ISBN: 9789722533782
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
Maria e Mei Lin podiam ser duas pessoas diferentes. Na verdade, são duas facetas da mesma mulher. Quando Mei Lin, uma menina irreverente, com grandes sonhos, foge do convento e das freiras que a criaram para não se ver condenada a uma vida sem fulgor, predestinada por outros, estava longe de imaginar que a sua escolha a precipitaria para o submundo das casas de ópio e de prostituição de Macau. Mas o destino prega-lhe uma partida e Mei Lin acaba por ser vendida como pei-pa-chai — no fundo, uma escrava sexual. É então que conhece Manuel, filho de uma das famílias portuguesas mais importantes do Território, alguém que lhe pode dar outra vida.

Mas será a nova família capaz de a aceitar? E será que o passado ficou verdadeiramente para trás? Uma viagem por Macau nas décadas de 40, 50 e 60 e pelas contradições da vida num território português às portas da China, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial e da guerra sino-japonesa.

A minha opinião:
Gosto tanto quando um livro me agrada a ponto de se tornar compulsiva a leitura como aconteceu com "O Rio das Pérolas". Não é a primeira vez que o escrevo e acho sinceramente que é isso que nos torna leitores. Quando encontramos um livro que é o certo, dada a expectativa e a satisfação ao virar de cada página até ao desfecho. Outro aspecto já referido é a alegria na descoberta de novos autores para mim. 

Apesar da nota de abertura dificilmente não se percebia que o contexto histórico é preciso e que a autora sabia bem do que escrevia, resultado de um apurado trabalho de investigação, bem como de algum tipo de experiência pessoal. A escrita é fluída e natural como as águas de um rio, o enredo é simples e cede às vicissitudes do tempo e do local onde se passa a ação e as personagens principais são femininas e maleáveis. 

Sem pretensões elevadas é um romance histórico que parte da premissa do abandono de recém-nascidos, normalmente do sexo feminino naquela região. "Nascidas em circuntâncias menos favoráveis, marcadas pelo estigma da desvalorização da mulher para o trabalho nas regiões mais pobres, o destino de muitas raparigas era o abandono à porta das igrejas ou orfanatos ou, frequentemente afogados à nascença." (pag. 13)

A trama evolui e temos um mix de aventuras, espionagem e romance quando Maria/ Mei Lin foge do colégio aos doze anos, depois de ouvir uma conversa entre o padrinho e a madre a respeito do seu possível casamento. O casamento com um homem bom acaba por acontecer anos mais tarde mas a vida de Maria/ Mei Lin continua presa a segredos do passado.

Muito interessante e enriquecedor. Não será certamente um best-seller mas deu-me imenso gozo ler um livro assim, pontuado por usos e costumes longínquos de outros tempos. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

As Oito Montanhas

Autor: Paolo Cognetti
Edição: 2017/ abril
Páginas: 224
ISBN: 9789722062220
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Pietro é um rapazinho da cidade, solitário e pouco sociável. Os seus pais estão ligados pela paixão da montanha que os uniu desde sempre, mesmo na tragédia, e o horizonte linear de Milão enche-os agora de saudade e nostalgia.

Quando descobrem a aldeia de Grana, no sopé do Monte Rosa, sentem ter encontrado o lugar certo: Pietro passará ali todos os verões onde, à sua espera, está Bruno. São da mesma idade mas, em vez de estar de férias escolares, ocupa-se a pastar vacas.

Têm assim início verões de explorações e descobertas, entre as casas abandonadas, o moinho e os carreiros mais íngremes. São também os anos em que Pietro descobre que a montanha é um saber, um verdadeiro e adequado modo de respirar. E descobre também que o pai lhe deixa o legado mais verdadeiro: «Ali estava a minha herança: uma parede de rocha, neve, um montão de pedras em quadrado, um pinheiro.» Uma herança que passados muitos anos o reaproximará de Bruno.

As Oito Montanhas é um livro magnético e adulto, que explora ligações acidentadas mas graníticas, a possibilidade de aprender e a procura do nosso lugar no mundo. Maravilhoso, literário, intenso e lírico, invade-nos com o ar puro e a luz da natureza e com as cores e os cheiros das estações.

A minha opinião:
Há livros que nos deixam sem palavras, ou pelo menos, sem encontrar as palavras certas. É assim que me sinto agora. Não sei como transmitir o muito que me fez sentir. Sei que é um livro extraordináriamente tocante na sua simplicidade e despojamento. Maduro e lírico. A plentitude na montanha que liga dois jovens numa amizade que dura uma vida inteira. 

(...) não resta mais do que vaguer pelas oito montanhas...  (pag. 222)

O autor assume que esta história lhe pertence como as suas memórias e que se trata de dois amigos e uma montanha, mas para mim é muito mais do que isso. A infância, a adolescência e a maturidade. O reencontro. A auto-descoberta. Tudo isto dividido em três partes: Montanha da Infância, A Casa da Reconciliação e Inverno de um Amigo. 

Escrita límpida e fluída para uma história mais contemplativa. A comunicação faz-se no silêncio da montanha dos Alpes. Um livro que não se esquece. 


"O passado é a jusante, o futuro a montante.(...) Seja o que for o destino, habita nas montanhas que temos acima da cabeça."     (pag.34)

"O verão apaga as recordações tal como derrete a neve, mas os glaciares são a neve dos invernos longínquos, é uma recordação de inverno que não pode ser esquecida. Só então compreendi de que que falava. E sabia de uma vez por todas ter tido dois pais: o primeiro era o estranho com quem vivera durante vinte anos, na cidade, e cortara relações durante outros dez; o segundo era o pai da montanha, aquele que apenas entrevira e no entanto conhecera melhor, o homem que caminhava atrás de mim pelos carreiros, o amante dos glaciares."    (pag. 136)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Desaparecida

Autor: Elizabeth Adler
Edição: 2017/ março
Páginas: 368
ISBN: 9789897416811
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Ao entardecer, na belíssima paisagem do Mar Egeu, uma mulher de cabelos ruivos cai da amurada de um iate de luxo. Em terra, o pintor Marco Polo Mahoney vê a queda, percebe que a jovem está ferida e assiste, perplexo, à embarcação a afastar-se deliberadamente. Marco tenta imediatamente salvá-la mas não a consegue encontrar. É como se a bela ruiva nunca tivesse existido. Mas ele tem a certeza do que viu. E está disposto a tudo para resolver o mistério.

Angie Morse acabou de ser atingida na cabeça com uma garrafa de champanhe. Caiu no mar, ferida, e os seus companheiros parecem estar a abandoná-la. O iate onde ela seguia está a afastar-se, levando consigo os supostos amigos e o namorado. E, embora cada um deles tivesse algo contra si, Angie estava longe de imaginar que quisessem vê-la morta. Agora, enquanto as ondas a tentam submergir, invade-a um sentimento apenas: raiva.

É a raiva que lhe vai dar forças para sobreviver… e também para se vingar...

A minha opinião:
O primeiro livro que li desta autora foi "Casamento em Veneza" e fiquei tão bem impressionada que procurei ler outros, mas o efeito não se repetiu. Aliás, depois de "Desaparecida" também eu vou desaparecer com esta autora do meu radar. Creio que este foi o meu último.

Normalmente, tento ser moderada nos comentários que faço porque avalio o empenho e dedicação da parte de quem escreve, mas não me parece que isso tenha existido neste livro, uma vez que a narrativa é paupérrima, incongruente e as personagens são desinteressantes. Fiquei furiosa porque esperava um enredo leve e sonhador, adequado a um período de lazer e entretenimento depois de leituras mais exigentes e frustei as minhas expetativas. Acontece... 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Tábua de Flandres

Autor: Arturo Pérez-Reverte
Edição: 2009/ novembro
Páginas: 336
ISBN: 9789892306711
Editora: Edições Asa

Sinopse:
No final do século XV, um velho mestre flamengo introduz num dos seus quadros um enigma que pode mudar a história da Europa. No quadro, o duque de Ostenburgo e o seu cavaleiro estão embrenhados numa partida de xadrez enquanto são observados por uma misteriosa dama vestida de negro. Todavia, à época em que o quadro foi pintado, um dos jogadores já havia sido assassinado.
Cinco séculos depois, uma restauradora de arte encontra a inscrição oculta: uis necavit equitem? (Quem matou o cavaleiro?) Auxiliada por um antiquário e um excêntrico jogador de xadrez, a jovem decide resolver o enigma. A investigação assumirá contornos muito singulares: o seu êxito ou fracasso será determinado, jogada a jogada, através de uma partida de xadrez constantemente ameaçada por uma sucessão diabólica de armadilhas e equívocos.

A minha opinião:
Arturo Pérez-Reverte é um dos escritores que acarinho e quando me deparei com este livro numa venda de livros em 2ª mão não hesitei.

Julia é uma restauradora de arte que compreendeu que A Partida de Xadrez do mestre flamengo Pieter Van Huys seria algo mais do que mera rotina quando descobriu o enigma desafiador que este deixara para ser desvendado cinco séculos depois. O mais interessante é que a Tábua de Flandres  é uma boa contrapartida para um intrigante romance ao reconstituir o jogo representado na tela de frente para trás para descobrir o móbil no crime.


Pouco ou nada sei de xadrez, mas a explicação não exige grandes conhecimentos, quando se trata de seguir as pistas que um outro assassino deixa quando decidiu continuar a jogar. E as peculiares personagens como César, o antiquário, Muñoz, o especialista em tácticas de xadrez e Julia prendem a atenção na sua estreita ligação.

Apesar da escrita sem falhas e da narrativa inteligente, peca por ser um tanto extenso em detalhes para um apreciador deste jogo estratégico e lógico, o que me ultrapassava. Confirmado quando não consegui desvendar a identidade do assassino que se ocultava na sombras.

Um bom desafio.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Filho

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2017/ março
Páginas: 536
ISBN: 9789722062039
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Antes de ser condenado, Sonny era um adolescente exemplar, campeão de luta livre, e tinha um futuro brilhante pela frente. Até saber que o pai, o seu ídolo, era afinal um polícia corrupto que preferiu o suicídio a ser exposto. Agora, Sonny é um prisioneiro modelo. Metade da sua vida foi passada como recluso, cumprindo penas por crimes que não cometeu. Como compensação, nunca lhe falta heroína. É o centro de um núcleo de corrupção: guardas prisionais, polícias, advogados, e até um capelão desesperado, todos empenhados em mantê-lo drogado na prisão.

Mas quando Sonny descobre a chocante verdade por detrás do suicídio do pai, planeia uma engenhosa fuga e começa a perseguir os responsáveis. Contudo, ao mesmo tempo que faz justiça pelas próprias mãos, é também perseguido por criminosos e pelas forças da lei. Com destaque para Simon, um inspetor prestes a reformar-se, e antigo amigo do pai. 
A questão é quem conseguirá chegar a ele primeiro, e o que fará Sonny quando se sentir encurralado?

Mais uma narrativa, fora da série Harry Hole, em que Nesbø prova, uma vez mais, ser exímio em criar personagens marcantes e merecer a distinção de mestre do suspense.

A minha opinião:
Uma estreia!
Apesar dos muitos livros publicados deste autor nórdico de policiais, eu não o conhecia. E se a capa dos seus livros é apelativa, torna-se ainda mais estranho eu nunca me ter focado neles. A sinopse refere um vingador - o Filho, de um policia, o que me deixou convicta de que o devia ler. 

Não sei como é a série Harry Hole, mas gostei muito de Simon Kefas. Um policia com história. Um policia sagaz e experiente nos Homicídios de Oslo. E claro, Sonny Lofthus, um jovem educado, simpático e ... místico. Um estudante promissor, que se dedicara a competições de luta livre, até perder o pai e a mãe se entregar ao desgosto, bastando a droga para afastar a dor. Mais tarde, para sustentar o vício, assumia culpas alheias. A confissão de um recluso veio alterar esta situação e dá-se a espetacular fuga. Depois ... uma sucessão de acontecimentos onde acontecem alguns crimes em ajuste de contas e a fuga aos seus perseguidores num suspense insustentável que prende à leitura com afeto e repudio pelas personagens. 

A empatia com as personagens principais é o elo mais extraordinário que cria com o leitor. O enredo, neste género, é do melhor que já li e agora que o conheço dificilmente vou perder este autor de vista.

De referir que é também um convite à reflexão sobre um mundo marginal de drogas e dependências numa sociedade tão organizada e racional onde a corrupção tem o seu lugar. 

Muito bom!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Construção do Vazio

Autor: Patrícia Reis
Edição: 2017/ março
Páginas: 160
ISBN: 9789722062312
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.
Será possível atenuar a dor?
Como se resiste ao fantasma real da infância?
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.

Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.

 
 A minha opinião:
Gosto muito da escrita de Patrícia Reis. Incisiva e económica nas palavras a marcar uma ideia ou emoção. Concisa e eficaz. Irrepreensivel. Sabia à priori que não seria uma leitura fácil devido ao tema. Desejava e receava ler este livro.

No entanto, Sofia, "a menina-desastre", conquistou-me de imediato com a sua terível narrativa. A mulher que se construiu no vazio e no silêncio, marcada desde a infância pelo abuso e violência exercida pelo pai e a maldade da mãe. Uma mulher solitária que perserva uma mão cheia de amigos. Uma sobrevivente. Não era a única naquele edificio onde vivia.
 
Leitura avassaladora. O sofrimento e busca de si mesma em Sofia levava-me a desejar-lhe um final feliz e a admirar mais o brilhantismo de Patrícia que, sem subterfúgios ou banalidades, sabe contar uma estória sem que me sinta tentada a abandonar a leitura e ainda me leva a refletir sobre o que se esconde entre quatro paredes e o que se oculta ao escurtinio publico, e como resistir a uma presença dominadora e manipuladora.

Possivelmente, foi o melhor romance que já li desta autora. Faltou-me no meu rol de leituras o "Por Este Mundo Acima" onde Sofia surgiu inicialmente. 

domingo, 14 de maio de 2017

A Avó e a Neve Russa

Autor: João Reis
Edição: 2017/ fevereiro
Páginas: 224
ISBN: 9789898843654
Editora: Elsinore

Sinopse:
Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.
Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.

Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.

A minha opinião:
Este livro não foi desejado, mas de tão bem recomendado fiquei sugestionada.

Muito bem concebido na apresentação.  A imagem enternece, a sinopse promete, enquanto a capa apetece afagar. 

À primeira vista, pareceu-me literatura infantil. Mudei de opinião com um olhar mais atento. A inocência e cuidado de um "homenzinho" de 10 anos que procura salvar a avó Babushka, uma vez que não compreendia como os médicos poderiam ajudar com a observação ou desenho de pássaros (confusão do termo oncologia com ornitologia). O recurso a todo os amigos que, na sua boa fé tinham alternativas. A demanda para encontrar um cacto milagroso e impedir que fosse entregue aos serviços sociais ou a uma familia de acolhimento se ficasse só com o irmão Andrei. Tudo isto, explicado por quem conhece o mundo através das palavras dos adultos e faz enleados raciocínios que a sua compreensão permite. Extensos demais no meu entender, mesmo considerando que este menino é especial. Talvez por isso, não tenha correspondido ao meu ideal. Bem escrito, sem dúvida, dentro do plano. Exaustivo, ambicioso e nem sempre credível. Apesar de tudo, inspirado e bem concluido.  

domingo, 7 de maio de 2017

Hoje Vai Ser Diferente

Autor: Maria Semple
Edição: 2017/ abril
Páginas: 304
ISBN: 9789724751313
Editora: Editorial Teorema

Sinopse:
Hoje vai ser diferente! - pensa Eleanor. 
E, de facto, vai… mas não da maneira que ela imagina. 

A vida de Eleanor Flood é um caos. Mas ela está decidida a mudar. Hoje vai ser diferente, acredita. Hoje vai tomar duche e vestir roupa elegante. Vai à aula de ioga depois de deixar o filho, Timby, na escola. Vai almoçar com uma amiga. Não vai dizer asneiras. Vai tomar a iniciativa na cama com o marido, Joe. Mas antes de conseguir pôr em prática o seu plano, a realidade obriga-a a travar… a fundo.

Pois hoje é o dia em que Timby decide fingir-se doente para ficar com a mãe. É também o dia em que Joe resolve gozar uns dias de férias mas se esquece de avisar Eleanor. E quando parece impossível as coisas piorarem, um antigo colega desencanta uma relíquia do passado, obrigando-a confrontar-se com velhos segredos de família e uma irmã desaparecida.

Introspetivo, trágico e cómico, "Hoje Vai Ser Diferente" marca o tão-aguardado regresso de Maria Semple após o sucesso de "Até Ao Fim do Mundo".

A minha opinião:
A expetativa era alta quando encarei este livro nas estantes de uma livraria e apressei-me a comprar. Sei o quanto apreciei a escrita e a irreverência de Até ao Fim do Mundo

Na senda do anterior com personagens extravagantes. Geniais intelectualmente mas desajustados na relação com os outros e no quotidiano mundano. Humor corrosivo e drama com Eleanor. Senão vejamos:
Perdeu a mãe aos nove anos, por causa de um cancro de pulmão. O pai, um bêbedo, abandonou as filhas que tiveram que se desenvencilhar sózinhas sem nunca saberem se ele regressava. A irmã, virou-se desconcertamente contra ela depois de se casar com um pedante rico e controlador de New Orleans. Casou com Joe, um conceituado cirurgião especializado em mãos, abandonou uma carreira como novelista gráfica com intenção de escrever um livro e teve um filho.  

Loucura e bravata com antecendentes que o justificam. Uma personagem tão terra a terra e despretensiosa que conquista. Uma personagem que assume as suas fragilidades e o desenquadramento com o meio em que vive de Seatle. Uma personagem que luta contra a carência e dor da ausência. E Timby, um garoto especial que a observa e protege com amor. 

Narrativa vibrante e divertida. Escrita fluída e ritmada que prende num desconcertante carrocel de emoções. Mais um romance de Maria Semple que se estranha mas que entranha. Narrativa sem falhas ou gralhas que me chamou a atenção para a tradução, que confirmei ser de Tânia Ganho. 

domingo, 30 de abril de 2017

O Velho e o Gato

Autor: Nils Uddenderg
Edição: 2017/ março
Páginas: 224
ISBN: 9789722533331
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
O Velho e o Gato conta a história de como Nils Uddenberg, antigo professor universitário de Psiquiatria, se tornou dono de uma gata, embora nunca tenha querido ter qualquer espécie de animal doméstico. Certa manhã de inverno, o autor encontrou uma gata no jardim da sua casa. A partir desse momento, Kitty introduziu-se, suave mas firmemente, na sua vida, para nunca mais a abandonar. Sendo, um escritor premiado com formação em Psiquiatria, não podia deixar de investigar mais profundamente a vida interior do gato, assim como a natureza da relação entre um animal e um ser humano.

Com humor e um grande sentido de observação, Nils conta-nos como a sua vida mudou depois de Kitty ter ido viver para sua casa. Os sentimentos que ela desperta nele são uma surpresa para o autor, que não tarda a dar por si apaixonado pela encantadora gatinha tigrada.


A minha opinião:
Uma história banal, quase ridicula. Uma história de amor. 

Uma gata determinada, metódica e cautelosa venceu a resistência de um septuagenário professor e ofereceu calor e aconcheco que descontrai e inspira segurança. No âmago independente. Assim são os gatos. Animais domésticos por opção que caçam por prazer. 

Pequeno livro com imagens singelas e enternecedoras, uma narrativa suave e pessoal para um leitor que aprecie a companhia destes animais. Como eu, que desde que me lembro sempre tive a presença de um gato por perto. Um gato que se mantêm vigilante e descontraído enroscado ao meu lado, que parte quando se sente mais desperto e ativo. Um gato que regressa quando lhe apetece. 

Este livro é um pequeno mimo como o que os gatos me proporcionam. Um mimo antes de leituras mais pesadas ou exigentes e não tão agradáveis e aprazíveis. Um mimo que revela algumas curiosidades sobre felinos, umas que eu sabia e outras não, assim como grandes autores que escreveram sobre a natureza destes animais. Um livro de lazer. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

A tentação de sermos felizes

Autor: Lorenzo Marone 
Edição: 2017/ março
Páginas: 216
ISBN: 978-972-0-04849-3
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Um velho e cínico «embusteiro».

Sem nos alongarmos mais, poderíamos assim definir Cesare Annunziata. Setenta e sete anos de idade, viúvo há cinco, e pai de dois filhos, Cesare decidiu, positivamente, marimbar-se para os outros. As suas opiniões são marcadas por uma ironia feroz, talvez por medo de não ser capaz de continuar a transmiti-las por muito mais tempo, e a sua vida segue o curso normal, rumo ao final previsível e universal, entre os copos de vinho tomados com Marino, o velho neurótico do segundo andar, as conversas indesejadas com Eleonora, a louca «velha dos gatos», e os breves encontros sexuais com Rossana, prostituta e enfermeira a meio tempo, que concede uma especial atenção aos viúvos do bairro.

Mas um dia chega ao prédio a jovem e enigmática Emma, casada com um indivíduo sinistro, com quem nada parece ter em comum, e Cesare não demora muito a perceber que há algo de errado no casal. No entanto, tal não significa que se vá intrometer… exceto quando recebe um silencioso pedido de ajuda, expresso no olhar triste de Emma.

Os segredos que Cesare desvenda acerca dos novos vizinhos, mas, em particular, aquilo que descobre sobre si mesmo, irão formar o enredo deste romance formidável, revelando-nos uma personagem singular, que vive em alegre contradição, entre o cinismo mais feroz e a humanidade mais profunda.

 
A minha opinião:
Romance formidável. Adorei da primeira à ùltima página.

A personagem Cesare Annunziata é uma personagem singular e marcante. Um "velho" com uma humanidade e autenticidade que lhe dá vida para além das páginas deste livro. Um embusteiro no cinismo que exibe com os seus comentários irónicos e os títulos falsos para intimidar ou persuadir os outros a agir corretamente. Um "velho" que segue a sua intuição e gosta de viver de uma forma fantasiosa e faz tudo para não se sentir idoso porque decidiu atirar-se à vida enquanto lhe é permitido. Um "velho" lúcido com dificuldade em demonstrar afetos. Um "velho", como eu gostaria de conhecer.

Uma história tão simples e tão bem conseguida. Por vezes, são as melhores. As que nos tocam mais profundamente porque sentimos mais próximas. Mas... este romance não é um mero exercício de escrita lamechas e "cor-de-rosa". Um olhar em redor numa cidade como Nápoles. Um olhar que detecta os problemas da velhice, da solidão, do vazio que se colmata mal e da violência doméstica. 

Narrativa consistente e sem quebras. Escrita fluída e corrente. Um romance para qualquer um. Drama e ternura em doses iguais com ótimas personagens e um Cesare. Formidável!

domingo, 23 de abril de 2017

A Rapariga de Antes

Autor: J. P. Delaney
Edição: 2017/ abril
Páginas: 400
ISBN: 9789896652029
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
«Por favor, faça uma lista de todos os bens que considera essenciais na sua vida.»

O pedido parece estranho, até intrusivo. É a primeira pergunta de um questionário de candidatura a uma casa perfeita, a casa dos sonhos de qualquer um, acessível a muito poucos. Para as duas mulheres que respondem ao questionário, as consequências são devastadoras.

EMMA: A tentar recuperar do final traumático de um relacionamento, Emma procura um novo lugar para viver. Mas nenhum dos apartamentos que vê é acessível ou suficientemente seguro. Até que conhece a casa que fica no n.º 1 de Folgate Street. É uma obra-prima da arquitectura: desenho minimalista, pedra clara, muita luz e tectos altos. Mas existem regras. O arquitecto que projectou a casa mantém o controlo total sobre os inquilinos: não são permitidos livros, almofadas, fotografias ou objectos pessoais de qualquer tipo. O espaço está destinado a transformar o seu ocupante, e é precisamente o que faz…

JANE:Depois de uma tragédia pessoal, Jane precisa de um novo começo. Quando encontra o n.º 1 de Folgate Street, é instantaneamente atraída para o espaço —e para o seu sedutor, mas distante e enigmático, criador. É uma casa espectacular. Elegante, minimalista. Tudo nela é bom gosto e serenidade. Exactamente o lugar que Jane procurava para começar do zero e ser feliz.
Depois de se mudar, Jane sabe da morte inesperada do inquilino anterior, uma mulher semelhante a Jane em idade e aparência. Enquanto tenta descobrir o que realmente aconteceu, Jane repete involuntariamente os mesmos padrões, faz as mesmas escolhas e experimenta o mesmo terror
que A Rapariga de Antes.

A minha opinião:
Gosto de thrillers psicológicos. Daqueles que me deixam arrepiada e inquieta. Por esse motivo, este livro não me podia passar ao lado. A complexidade ou a perturbação de algumas personagens atrai-me para uma leitura que sei compulsiva e viciante e induz em erro até um conseguido final.

Um elemento novo é quase protagonista desta narrativa onde antes e agora se passa a ação com duas mulheres, Emma e Jane, que vivem esperiências que o autor compara como se de duas imagens onde procuramos as diferenças se tratasse, e refiro-me, à casa minimalista e tecnológicamente avançada, concebida para uma vida confortável e segura que as personagens ambicionavam. Para a conseguirem a um módico valor sujeitam-se a um escrutínio por inquérito e aceitam muitas regras que o obscecado Edward impõe e que põem em causa o contrato se não forem cumpridas.

Li a entrevista do autor em que fiquei a saber que usou um pseudónimo para este livro que levou 15 anos a escrever.  O rumo do enredo foi mudando e nota-se várias influencias inclusive um Edward ao jeito de Mr. Grey e um desvio do foco da trama. A dado momento, algo de muito pessoal do autor passou para a narrativa através de Jane, a minha personagem favorita.


Um livro que merece bem a pena ler.  Não sabia de toda a campanha publicitária que foi gerada e como tal, não fui afetada por elevadas expetativas e gostei. 



quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Poder das Pequenas Coisas

Autor: Jodi Picoult
Edição: 2017/ março
Páginas: 512
ISBN: 9789722359788
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Ruth Jefferson é uma enfermeira obstetra com mais de vinte anos de experiência. Um dia, durante o seu turno, começa uma avaliação de rotina a um recém-nascido. Minutos depois é informada de que lhe foi atribuído outro paciente.

Os pais do bebé são supremacistas brancos e não querem que Ruth, afro-americana, toque no seu filho. O hospital acede a esta exigência, mas no dia seguinte o bebé enfrenta complicações cardíacas.

Ruth está sozinha na enfermaria. Deve ela cumprir as ordens que lhe foram dadas ou intervir? O que se segue altera a vida de todos os intervenientes e põe em causa a imagem que têm uns dos outros.

Com uma empatia, inteligência e simplicidade notáveis, Jodi Picoult aborda temas como a raça, o privilégio, o preconceito, a injustiça e a compaixão num livro magistral sem respostas fáceis.
 
A minha opinião:
Small Great Things é o título original e uma referência a uma citação frequente de Martin Luther King Jr., usada pela autora para explicar nesta narrativa que é através de pequenos atos que o racismo é tanto perpetuado como parcialmente desmontado. O poder das pequenas coisas. Singelo e maravilhoso este título que me atraiu para uma leitura que supunha erradamente banal e prevísivel.

Racismo nos Estados Unidos. Atual ... e pertinente.

A perspetiva de uma enfermeira negra que trabalhava em obstretícia há mais de vinte anos e é impedida por um pai supremacista branco de tocar no seu filho.

A perspetiva de uma defensora oficiosa bem intencionada sem ser idealista que não se considerava de todo racista e que vai aprender mais sobre si mesma.

A perspetiva de um racista que foi orientado desde jovem para canalizar assim a sua raiva.

A perspetiva de um jovem negro talentoso que foi educado a crer que trabalhando arduamente conquistaria o seu lugar e foi confrontado com a injustiça.

Várias perspetivas para a temática da diferença que benefica uns à partida e estes nem percebem que ganham porque outros perdem.

 Um romance que começou por me irritar a ponto de ponderar abandoná-lo e acabou por me convencer. Uma estreia com Jodi Picoult que me levou à reflexão introspetiva.